Por motivos pessoais, tenho buscado há algum tempo identificar as concepções de filosofia adotadas por alguns dos grandes filósofos. Tive oportunidade de publicar neste Blog do NEFiC e também no meu blog pessoal (Filosofia Cotidiana) algumas transcrições de filósofos que versaram sobre a questão.
Para eventuais interessados, reúno abaixo os links para três destas postagens. Mas além de lê-las, fica a pergunta: o que é filosofia, para você?
Martin Heidegger
Friedrich Nietzsche
César Chesneau du Marsais
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
sábado, 4 de outubro de 2008
Ensaio sobre a lucidez

Algum tempo depois de ter escrito o Ensaio sobre a cegueira (ver postagem abaixo), José Saramago escreveu também um Ensaio sobre a lucidez. Embora este livro (ainda) não tenha virado filme, aproveito a oportunidade para fazer ref(v)erência a ele aqui no Blog. Oportunidade? Sim, oportunidade! Explico:
No Ensaio sobre a lucidez Saramago nos apresenta uma sociedade (aquela mesma que anos atrás havia passado pela epidemia de cegueira branca) em pleno dia de eleições (olha aqui a minha oportunidade...).
Embora o voto seja facultativo na referida sociedade (aliás, porque o nosso é obrigatório?), a população comparece em massa às urnas. E todos votam... em branco!A lucidez quanto às responsabilidades dos cidadãos e cidadãs, sonhada por Saramago, faria bem na nossa sociedade, brasileira e atual. Não só a revolta contra o sistema eleitoral que apenas figurativamente é representativo (quantos de nós nos sentimos efetivamente representados por nossos representantes executivos e legislativos?), mas, principalmente, o senso de organização popular presente no romance. Faz lembrar aquela máxima, segundo a qual um povo nunca deve temer o seu governo; o governo é quem deve temer o povo.
Em vésperas de eleição, fica a recomendação da leitura. E o pedido por um voto responsável (seja ele branco ou de qualquer cor, seja responsável).
(Conheça o livro clicando aqui)
quinta-feira, 2 de outubro de 2008
Ensaio sobre a cegueira.
A pouco assisti este filme e gostaria de recomendá-lo, penso que é bastante propício para reflexões acerca da condição humana e dos nossos limites.
Ensaio sobre a cegueira.
O ser humano diante de situações insólitas está em pauta desde a veiculação de programas como "Survivors" e "No Limite". Ou ainda o "The Most Amazing Vídeos", com pessoas enfrentando momentos pitorescos e até perigosos, captados por alguém que filmava o que era para ser apenas um registro de um episódio cotidiano. A pergunta que fica é: como o ser humano responde a esses estímulos e até onde ele pode suportar em nome de sua sobrevivência? José Saramago narrou com maestria em "Ensaio sobre a Cegueira" uma situação desesperadora e suas conseqüências: a cegueira de toda uma população.
O livro começa com um motorista, que subitamente fica cego enquanto está parado em um sinal vermelho. Com uma pequena diferença: ele não mergulha numa total escuridão, mas sim numa cegueira leitosa, completamente branca. A partir daí, a cegueira vai contaminando outras pessoas como que num ciclo, começando por ele e seguindo através das pessoas que mantiveram contato com ele, desde o seu médico, passando pela mulher dele, os pacientes, até que se torna uma epidemia misteriosa. Todos os cegos são confinados em locais abandonados e fechados, sob as ordens dos que ainda conservavam a sua visão. Diante desse cenário, quem enxergava tornava-se uma autoridade, estabelecendo de que forma os cegos deveriam se comportar. Apesar da "epidemia" chegar a um grau tão extenso, acabando por atingir toda a população do local, a mulher do médico é a única pessoa que ainda consegue enxergar e assim registrar todo o horror e provação que os cegos enfrentam. Observando o comportamento deles a partir e o modo como relacionam-se uns com os outros, ela chega a concluir que as pessoas tornam-se realmente quem elas são, a partir do momento em que não podem julgar a partir do que vêem.
Ensaio sobre a cegueira.
O ser humano diante de situações insólitas está em pauta desde a veiculação de programas como "Survivors" e "No Limite". Ou ainda o "The Most Amazing Vídeos", com pessoas enfrentando momentos pitorescos e até perigosos, captados por alguém que filmava o que era para ser apenas um registro de um episódio cotidiano. A pergunta que fica é: como o ser humano responde a esses estímulos e até onde ele pode suportar em nome de sua sobrevivência? José Saramago narrou com maestria em "Ensaio sobre a Cegueira" uma situação desesperadora e suas conseqüências: a cegueira de toda uma população.
O livro começa com um motorista, que subitamente fica cego enquanto está parado em um sinal vermelho. Com uma pequena diferença: ele não mergulha numa total escuridão, mas sim numa cegueira leitosa, completamente branca. A partir daí, a cegueira vai contaminando outras pessoas como que num ciclo, começando por ele e seguindo através das pessoas que mantiveram contato com ele, desde o seu médico, passando pela mulher dele, os pacientes, até que se torna uma epidemia misteriosa. Todos os cegos são confinados em locais abandonados e fechados, sob as ordens dos que ainda conservavam a sua visão. Diante desse cenário, quem enxergava tornava-se uma autoridade, estabelecendo de que forma os cegos deveriam se comportar. Apesar da "epidemia" chegar a um grau tão extenso, acabando por atingir toda a população do local, a mulher do médico é a única pessoa que ainda consegue enxergar e assim registrar todo o horror e provação que os cegos enfrentam. Observando o comportamento deles a partir e o modo como relacionam-se uns com os outros, ela chega a concluir que as pessoas tornam-se realmente quem elas são, a partir do momento em que não podem julgar a partir do que vêem.
terça-feira, 23 de setembro de 2008
Filosofia, só na Europa
Por motivos diversos tenho nas últimas semanas me empenhado em buscar definições e sentidos dados por autores vários ao ato de filosofar. Numa palavra, tenho procurado entender o que os grandes filósofos entendiam por filosofia e por filosofar.
Os resultados são tão variados quanto interessantes. Muitas vezes opostos.
Heidegger, por exemplo, diz que eu - e provavelmente você - não podemos ser filósofos. Isso não só porque a filosofia é exclusivamente européia, como porque "o Ocidente e a Europa, e somente eles," são "filosóficos".
Dou-me o direito de discordar. Afinal, Heidegger fala dos caminhos por onde costumo passar com a mesma propriedade com que eu falaria da sua Alemanha...
O texto heideggeriano nos ajuda a manter viva a desconfiança dos escritos dos grandes filósofos (sim, sim, apesar disso ele é um grande filósofo):

Extraído de "O que é isso - a filosofia?", de Martin Heidegger. Tradução de E. Stein.
Obs.: o tom crítico da mensagem é de respnsabilidade pessoal, não representando necessariamente a posição institucional do NEFiC.
Os resultados são tão variados quanto interessantes. Muitas vezes opostos.
Heidegger, por exemplo, diz que eu - e provavelmente você - não podemos ser filósofos. Isso não só porque a filosofia é exclusivamente européia, como porque "o Ocidente e a Europa, e somente eles," são "filosóficos".
Dou-me o direito de discordar. Afinal, Heidegger fala dos caminhos por onde costumo passar com a mesma propriedade com que eu falaria da sua Alemanha...
O texto heideggeriano nos ajuda a manter viva a desconfiança dos escritos dos grandes filósofos (sim, sim, apesar disso ele é um grande filósofo):

A palavra philosophía diz-nos que a filosofia é algo que pela primeira vez e antes de tudo vinca a existência do mundo grego. Não só isto — a philosophía determina também a linha mestra de nossa história ocidental-européia. A batida expressão “filosofia ocidental-européia” é, na verdade, uma tautologia. Por quê? Porque a ‘filosofia” é grega em sua essência —e grego aqui significa: a filosofia é nas origens de sua essência de tal natureza que ela primeiro se apoderou do mundo grego e só dele, usando-o para se desenvolver.
Mas a essência originariamente grega da filosofia é dirigida e dominada, na época de sua vigência na Modernidade Européia, por representações do cristianismo. A hegemonia destas representações é mediada pela Idade Média. Entretanto, não se pode dizer que por isto a filosofia se tornou cristã, quer dizer, uma tarefa da fé na revelação e na autoridade da Igreja. A frase: a filosofia é grega em sua essência, não diz outra coisa que: o Ocidente e a Europa, e somente eles, são, na marcha mais íntima de sua história, originariamente “filosóficos”. Isto é atestado pelo surto e domínio das ciências. Pelo fato de elas brotarem da marcha mais íntima da história ocidental-européia, o que vale dizer do processo da filosofia, são elas capazes de marcar hoje, com seu cunho específico, a história da humanidade pelo orbe terrestre.
Mas a essência originariamente grega da filosofia é dirigida e dominada, na época de sua vigência na Modernidade Européia, por representações do cristianismo. A hegemonia destas representações é mediada pela Idade Média. Entretanto, não se pode dizer que por isto a filosofia se tornou cristã, quer dizer, uma tarefa da fé na revelação e na autoridade da Igreja. A frase: a filosofia é grega em sua essência, não diz outra coisa que: o Ocidente e a Europa, e somente eles, são, na marcha mais íntima de sua história, originariamente “filosóficos”. Isto é atestado pelo surto e domínio das ciências. Pelo fato de elas brotarem da marcha mais íntima da história ocidental-européia, o que vale dizer do processo da filosofia, são elas capazes de marcar hoje, com seu cunho específico, a história da humanidade pelo orbe terrestre.
Extraído de "O que é isso - a filosofia?", de Martin Heidegger. Tradução de E. Stein.
Obs.: o tom crítico da mensagem é de respnsabilidade pessoal, não representando necessariamente a posição institucional do NEFiC.
terça-feira, 16 de setembro de 2008
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
Mais uma da Veja para nossas reflexões
É incrível como a educação é fértil para discussões, e o melhor (será?), todo mundo pode dar um pitaco..rsrs. Com tanta gente boa, em breve estaremos no topo das pesquisas....
Creio que este artigo vale uma boa discussão.
No primeiro ano de faculdade aprendi um truque que muito me auxiliou na hora de obter notas melhores. Descobri que, numa prova na qual cai um tema que você não estudou, que o pegou de surpresa, sobre um assunto de que você não sabe absolutamente nada, o melhor é não entregá-la em branco, que seria a coisa mais lógica e correta a fazer. Nessas horas, escreva sempre alguma coisa, preencha o papel com abobrinhas, pois quanto maior o número de páginas, melhor. Isso porque existem dois tipos de professor no Brasil: um deles é formado pelos que corrigem de acordo com o que é certo e errado. São geralmente professores de engenharia, produção, direito, matemática, recursos humanos e administração. Escrever que dois mais dois podem ser três ou doze, dependendo “da interpretação lógica do seu contexto histórico desconstruído das forças inerentes”, não comove esse tipo de professor. Ele dá nota dependendo do resultado, e fim de papo.
Mas, para a minha alegria, e agora também a sua, existe outro tipo de professor, mais humano e mais socialmente engajado, que dá nota segundo o critério de esforço despendido pelo aluno e não apenas pelo resultado. Se você escreveu dez páginas e disse coisas interessantes, mesmo que não pertinentes ao tema, ficou as duas horas da prova até o fim, mostrou esforço, ganhará uns pontinhos, digamos uma nota 3 ou até um 3,5. O que pode ser a sua salvação. Na próxima prova você só precisará tirar um 6,5 para compensar, e não uma impossível nota 10. Se você estudar um mínimo e usar esse truque, vai tirar um 5.
Uma vez formados, os alunos desse tipo de professor são muito fáceis de identificar. Seus textos são permeados de abobrinhas e mais abobrinhas, cheios de platitudes e chavões. Defendem que a renda deve ser distribuída pelo esforço, e não pelo resultado, e que toda criança que compete deve ganhar uma medalha. Defendem que todo professor de universidade deve ganhar o mesmo salário, independentemente da qualidade das aulas, e que a solução para a educação é mais e mais verbas do governo, sem nenhuma avaliação de desempenho.
Esses dois tipos de professor obviamente não se bicam. É a famosa briga da turma da filosofia contra a turma da engenharia. São as duas grandes visões políticas do mundo, é a diferença entre administração pública e privada. O que é mais justo, remunerar pelo esforço de cada um ou pelos resultados alcançados? O que é mais correto, remunerar pela obediência e cumprimento de horário ou pelas realizações efetivas com que cada um contribuiu para a sociedade?
Como o Brasil ainda não resolveu essa questão, não podemos discutir o próximo passo, que são as injustiças da opção feita. É justo só remunerar pelo resultado? É justo remunerar somente pelo esforço? Podemos até escolher um meio-termo, mas qual será a ênfase que daremos na educação dos nossos filhos e na avaliação de nossos trabalhadores? Ao esforço ou ao resultado?
Quem tentou ser útil à sociedade mas fracassou teria direito a uma “renda mínima”? É justo dar 3,5 àqueles cujo esforço foi justamente enganar seus professores e o “sistema”? Não seria justo dar-lhes um sonoro zero? Precisamos optar por uma sociedade justa ou uma sociedade eficiente, ou podemos ter ambas?
Como aluno, eu tive de me esforçar muito mais para as provas daqueles professores carrascos, que avaliavam resultados, do que para as provas dos professores mais bonzinhos. Quero agradecer publicamente aos professores “carrascos” pela postura ética que adotaram, apesar das nossas amargas críticas na época. Agora entendo por que tantos de nossos cientistas e professores pertencem à Academia de Letras, por que somos o último país do mundo em termos de patentes, por que tantos brasileiros recebem sem contribuir absolutamente nada para a sociedade e por que nossos políticos falam e falam e não realizam nada.
Que sociedade é mais justa, aquela que valoriza as boas intenções e o esforço ou aquela que valoriza os resultados? Uma boa pergunta para começar a discutir no retorno às aulas.
Stephen Kanitz é formado pela Harvard Business School (www.kanitz.com.br)
Revista Veja, Editora Abril, edição 2073, ano 41, nº 32, 13 de agosto de 2008, página 28
Creio que este artigo vale uma boa discussão.
No primeiro ano de faculdade aprendi um truque que muito me auxiliou na hora de obter notas melhores. Descobri que, numa prova na qual cai um tema que você não estudou, que o pegou de surpresa, sobre um assunto de que você não sabe absolutamente nada, o melhor é não entregá-la em branco, que seria a coisa mais lógica e correta a fazer. Nessas horas, escreva sempre alguma coisa, preencha o papel com abobrinhas, pois quanto maior o número de páginas, melhor. Isso porque existem dois tipos de professor no Brasil: um deles é formado pelos que corrigem de acordo com o que é certo e errado. São geralmente professores de engenharia, produção, direito, matemática, recursos humanos e administração. Escrever que dois mais dois podem ser três ou doze, dependendo “da interpretação lógica do seu contexto histórico desconstruído das forças inerentes”, não comove esse tipo de professor. Ele dá nota dependendo do resultado, e fim de papo.
Mas, para a minha alegria, e agora também a sua, existe outro tipo de professor, mais humano e mais socialmente engajado, que dá nota segundo o critério de esforço despendido pelo aluno e não apenas pelo resultado. Se você escreveu dez páginas e disse coisas interessantes, mesmo que não pertinentes ao tema, ficou as duas horas da prova até o fim, mostrou esforço, ganhará uns pontinhos, digamos uma nota 3 ou até um 3,5. O que pode ser a sua salvação. Na próxima prova você só precisará tirar um 6,5 para compensar, e não uma impossível nota 10. Se você estudar um mínimo e usar esse truque, vai tirar um 5.
Uma vez formados, os alunos desse tipo de professor são muito fáceis de identificar. Seus textos são permeados de abobrinhas e mais abobrinhas, cheios de platitudes e chavões. Defendem que a renda deve ser distribuída pelo esforço, e não pelo resultado, e que toda criança que compete deve ganhar uma medalha. Defendem que todo professor de universidade deve ganhar o mesmo salário, independentemente da qualidade das aulas, e que a solução para a educação é mais e mais verbas do governo, sem nenhuma avaliação de desempenho.
Esses dois tipos de professor obviamente não se bicam. É a famosa briga da turma da filosofia contra a turma da engenharia. São as duas grandes visões políticas do mundo, é a diferença entre administração pública e privada. O que é mais justo, remunerar pelo esforço de cada um ou pelos resultados alcançados? O que é mais correto, remunerar pela obediência e cumprimento de horário ou pelas realizações efetivas com que cada um contribuiu para a sociedade?
Como o Brasil ainda não resolveu essa questão, não podemos discutir o próximo passo, que são as injustiças da opção feita. É justo só remunerar pelo resultado? É justo remunerar somente pelo esforço? Podemos até escolher um meio-termo, mas qual será a ênfase que daremos na educação dos nossos filhos e na avaliação de nossos trabalhadores? Ao esforço ou ao resultado?
Quem tentou ser útil à sociedade mas fracassou teria direito a uma “renda mínima”? É justo dar 3,5 àqueles cujo esforço foi justamente enganar seus professores e o “sistema”? Não seria justo dar-lhes um sonoro zero? Precisamos optar por uma sociedade justa ou uma sociedade eficiente, ou podemos ter ambas?
Como aluno, eu tive de me esforçar muito mais para as provas daqueles professores carrascos, que avaliavam resultados, do que para as provas dos professores mais bonzinhos. Quero agradecer publicamente aos professores “carrascos” pela postura ética que adotaram, apesar das nossas amargas críticas na época. Agora entendo por que tantos de nossos cientistas e professores pertencem à Academia de Letras, por que somos o último país do mundo em termos de patentes, por que tantos brasileiros recebem sem contribuir absolutamente nada para a sociedade e por que nossos políticos falam e falam e não realizam nada.
Que sociedade é mais justa, aquela que valoriza as boas intenções e o esforço ou aquela que valoriza os resultados? Uma boa pergunta para começar a discutir no retorno às aulas.
Stephen Kanitz é formado pela Harvard Business School (www.kanitz.com.br)
Revista Veja, Editora Abril, edição 2073, ano 41, nº 32, 13 de agosto de 2008, página 28
domingo, 7 de setembro de 2008
PENSAR A EDUCAÇÃO A PARTIR DA FILOSOFIA
Agora que a filosofia volta a integrar (por força da lei nº xx se 02 de junho de 2008) o currículo do Ensino Médio, faz-se oportuno e necessário refletir e discutir ampla e profundamente o papel desse saber civilizador no processo civilizatório ou, como diriam os gregos, no processo de hominização do homem ocidental.
Devemos acrescentar que a polêmica em torno da aceitação, validade e significação social e política do ensino da filosofia no Ensino Médio não é recente. No início dos anos 80, quando alguns estados brasileiros implantaram a filosofia, mesmo que como disciplina facultativa, em seus currículos, os ânimos se acenderam em torno de uma acirrada polêmica: uns defendiam a importância da filosofia como disciplina no Ensino Médio, outros discordavam veementemente dessa inclusão e a discussão esquentou-se e durou mais de uma década.
Nesse contexto discutiu-se muito e acaloradamente sobre a utilidade e/ou a inutilidade da filosofia.
Por isso não se deve estranhar que a polêmica seja retomada nos dias de hoje.
O que é necessário é perguntar-se por que se retoma essa polêmica frente à inclusão da filosofia como disciplina obrigatória no currículo do Ensino Médio.
Neste aspecto ouso arriscar uma resposta que não pretende ser única e menos ainda a melhor, mais verdadeira ou definitiva. Porém, parece-me um bom começo de reflexão.
Assim, ouso afirmar que essa polêmica surge e arde porque a filosofia ensina a pensar. A pensar com profundidade, com rigor e cuidado. A filosofia é uma disciplina e, por ser disciplina, às vezes mais às vezes menos, vai, sempre, incitar as pessoas, em especial os adolescentes e jovens, a pensarem. A filosofia é sempre, antes de ser a prática, um convite à reflexão.
Ora, se a filosofia pode, além de ensinar a pensar, incitar o pensar com rigor e profundidade, o melhor é evitá-la. Assim pensam os que têm medo da filosofia. Isto é, os que têm medo das pessoas que pensam. Assim pensaram aqueles que condenaram Sócrates à morte, no século V a. C. Assim pensaram os que condenaram o monge Giordano Bruno à fogueira e, pouco depois, prenderam a Galileu Galilei.
Essas pessoas existem ainda hoje e estão contentes com a educação escolar brasileira atual exatamente porque ela não tem ensinado a pensar. Se já ensinava pouco no passado, atualmente o faz menos ainda. E por que não o faz, se essa é, confessada e originalmente, a tarefa a que se destina a escola?
Entre as diversas possíveis razões, podemos aventar algumas hipóteses. Apenas a título de reflexão. Provavelmente por ser demasiado técnica e pensar pelo viés tecnicista. Talvez por ser conteudista, isto é, supervalorizar a transmissão de conteúdos: as verdades prontas e fechadas, cientificamente comprovadas e absolutizadas pela sociedade pragmática, imediatista e utilitarista. Talvez, ainda, por pretender equivocadamente uma impossível e falaciosa neutralidade política e ideológica.
Por todos esses motivos e alguns outros quitais, a escola não tem ensinado a pensar. No entanto, isso é benéfico às relações de dominação vigentes nas sociedades urbano-industriais que caracterizam o capitalismo moderno.
Eis um dos motivos pelos quais pessoas, grupos, partidos políticos e órgãos da grande imprensa, uns por ingenuidade outros por má fé, defendem uma educação conteudista e tecnicista. Apontando tal modelo de educação e de escola como redentora da sociedade e do homem.
Esses grupos, pessoas e instituições, geralmente falam em nome de uma pseudo-solução da crise da educação brasileira. A crise de que falam e que pretendem solucionar é sempre dada como certa, conhecida e indubitável. Porém, quase nunca é examinada com maior profundidade, ou mesmo identificada com clareza. Por outro lado, costumam apontar culpados por esta crise. Só que, mesmo entre eles, quase nunca se entendem sobre os verdadeiros culpados, os reais causadores do problema. Tampouco se afinam quanto aos responsáveis pela solução do problema. Recentemente os vimos acusando os professores de serem os únicos culpados pelas deficiências da escola e da educação no Brasil. Já o fizeram outras vezes.
Desta vez, porém, inovaram de forma mirabolante e criativa: disseram que a raiz da crise educacional no Brasil, as razões pelas quais as crianças brasileiras não aprendem e, portanto, se saíram tão mal nos exames internacionais de qualidade na educação, está no fato dos professores brasileiros serem adeptos das teorias marxista-leninistas e, pregarem, em sala de aula, o socialismo. É claro que agregaram a isso a má formação dos professores. Discurso sofismático que pode levar os leitores a concluir que a má formação, o despreparo intelectual, o pouco conhecimento científico, que levam os professores e professoras a se tornarem socialistas.
Pergunto: seriam risíveis tais afirmações acusativas?
Rindo ou chorando diante de tais afirmações, que beiram ao ridículo, vindas a lume em um conhecido veículo da grande imprensa brasileira, devemos atentar para dois aspectos que podem nos ajudar a refletir sobre estas fantasiosas e mirabolantes pregações. Ridículas e risíveis, talvez.
a) A primeira é que, todos nós sabemos que há professores bons e professores ruins em todas as redes de ensino espalhadas por esse Brasil a fora. Há professores bem preparados e bem formados e professores mal formados e mal preparados para a ação docente. Há professores de esquerda e extrema esquerda e professores de direita e extrema direita. Assim como há professores de centro. Se isso for considerado possível. No entanto, não é necessário muita inteligência para perceber que não são os professores a principal causa da crise da educação brasileira. Podemos até pensar o contrário: são os professores, de todas as cores e origens ideológicas, que ainda sustentam o que resta de uma educação que se desfaz há já algum tempo. Sem a ação e resistência desses professores e professoras, a coisa estaria muito pior.
b) O segundo aspecto que pode nos ajudar a refletir melhor sobre a educação brasileira atual é perceber que falar em crise da educação no Brasil, sem analisar com mais cuidado e atenção sua abrangência e sua significação social, sua trajetória histórica e político e, até mesmo a sua real existência (duvidar hiperbolicamente dessa existência), deixou de fazer sentido. A simples afirmação dessa suposta crise ou a aceitação incondicional da sua existência, é uma atitude carente de significado. E mais ainda se tivermos em conta o que escreveu Darcy Ribeiro, em 1970, em um curto e incisivo texto ao qual deu o título “Sobre o Óbvio”.
No entanto, essas idéias e convicções pregadas, divulgadas e propaladas por estas pessoas, grupos e órgãos da grande imprensa, me assustam. E assustam-me porque foi isso o que ocorreu na Alemanha pré-nazista, na Itália pré-fascista e no Brasil pré-regime militar.
Por isso é aconselhável a leitura do texto de Darcy Ribeiro, citado acima. Mas, também, do livro de Theodor Adorno, “Educação e Emancipação”, em especial o capítulo intitulado “Educação após Auschwitz”. Alguns textos do Dermeval Saviani, da Marilena Chauí e do Antonio Joaquim Severino. Certamente a leitura dos textos desses autores nos ajudará a pensar melhor sobre a educação e sobre certas afirmações que tentam nos impor como verdades, algumas delas mal-intencionadas e fantasiosas e, por isso, nocivas à compreensão da realidade que nos cerca. Porém, interessantes para as pessoas e grupos de extrema direita.
Dildo Brasil,
Devemos acrescentar que a polêmica em torno da aceitação, validade e significação social e política do ensino da filosofia no Ensino Médio não é recente. No início dos anos 80, quando alguns estados brasileiros implantaram a filosofia, mesmo que como disciplina facultativa, em seus currículos, os ânimos se acenderam em torno de uma acirrada polêmica: uns defendiam a importância da filosofia como disciplina no Ensino Médio, outros discordavam veementemente dessa inclusão e a discussão esquentou-se e durou mais de uma década.
Nesse contexto discutiu-se muito e acaloradamente sobre a utilidade e/ou a inutilidade da filosofia.
Por isso não se deve estranhar que a polêmica seja retomada nos dias de hoje.
O que é necessário é perguntar-se por que se retoma essa polêmica frente à inclusão da filosofia como disciplina obrigatória no currículo do Ensino Médio.
Neste aspecto ouso arriscar uma resposta que não pretende ser única e menos ainda a melhor, mais verdadeira ou definitiva. Porém, parece-me um bom começo de reflexão.
Assim, ouso afirmar que essa polêmica surge e arde porque a filosofia ensina a pensar. A pensar com profundidade, com rigor e cuidado. A filosofia é uma disciplina e, por ser disciplina, às vezes mais às vezes menos, vai, sempre, incitar as pessoas, em especial os adolescentes e jovens, a pensarem. A filosofia é sempre, antes de ser a prática, um convite à reflexão.
Ora, se a filosofia pode, além de ensinar a pensar, incitar o pensar com rigor e profundidade, o melhor é evitá-la. Assim pensam os que têm medo da filosofia. Isto é, os que têm medo das pessoas que pensam. Assim pensaram aqueles que condenaram Sócrates à morte, no século V a. C. Assim pensaram os que condenaram o monge Giordano Bruno à fogueira e, pouco depois, prenderam a Galileu Galilei.
Essas pessoas existem ainda hoje e estão contentes com a educação escolar brasileira atual exatamente porque ela não tem ensinado a pensar. Se já ensinava pouco no passado, atualmente o faz menos ainda. E por que não o faz, se essa é, confessada e originalmente, a tarefa a que se destina a escola?
Entre as diversas possíveis razões, podemos aventar algumas hipóteses. Apenas a título de reflexão. Provavelmente por ser demasiado técnica e pensar pelo viés tecnicista. Talvez por ser conteudista, isto é, supervalorizar a transmissão de conteúdos: as verdades prontas e fechadas, cientificamente comprovadas e absolutizadas pela sociedade pragmática, imediatista e utilitarista. Talvez, ainda, por pretender equivocadamente uma impossível e falaciosa neutralidade política e ideológica.
Por todos esses motivos e alguns outros quitais, a escola não tem ensinado a pensar. No entanto, isso é benéfico às relações de dominação vigentes nas sociedades urbano-industriais que caracterizam o capitalismo moderno.
Eis um dos motivos pelos quais pessoas, grupos, partidos políticos e órgãos da grande imprensa, uns por ingenuidade outros por má fé, defendem uma educação conteudista e tecnicista. Apontando tal modelo de educação e de escola como redentora da sociedade e do homem.
Esses grupos, pessoas e instituições, geralmente falam em nome de uma pseudo-solução da crise da educação brasileira. A crise de que falam e que pretendem solucionar é sempre dada como certa, conhecida e indubitável. Porém, quase nunca é examinada com maior profundidade, ou mesmo identificada com clareza. Por outro lado, costumam apontar culpados por esta crise. Só que, mesmo entre eles, quase nunca se entendem sobre os verdadeiros culpados, os reais causadores do problema. Tampouco se afinam quanto aos responsáveis pela solução do problema. Recentemente os vimos acusando os professores de serem os únicos culpados pelas deficiências da escola e da educação no Brasil. Já o fizeram outras vezes.
Desta vez, porém, inovaram de forma mirabolante e criativa: disseram que a raiz da crise educacional no Brasil, as razões pelas quais as crianças brasileiras não aprendem e, portanto, se saíram tão mal nos exames internacionais de qualidade na educação, está no fato dos professores brasileiros serem adeptos das teorias marxista-leninistas e, pregarem, em sala de aula, o socialismo. É claro que agregaram a isso a má formação dos professores. Discurso sofismático que pode levar os leitores a concluir que a má formação, o despreparo intelectual, o pouco conhecimento científico, que levam os professores e professoras a se tornarem socialistas.
Pergunto: seriam risíveis tais afirmações acusativas?
Rindo ou chorando diante de tais afirmações, que beiram ao ridículo, vindas a lume em um conhecido veículo da grande imprensa brasileira, devemos atentar para dois aspectos que podem nos ajudar a refletir sobre estas fantasiosas e mirabolantes pregações. Ridículas e risíveis, talvez.
a) A primeira é que, todos nós sabemos que há professores bons e professores ruins em todas as redes de ensino espalhadas por esse Brasil a fora. Há professores bem preparados e bem formados e professores mal formados e mal preparados para a ação docente. Há professores de esquerda e extrema esquerda e professores de direita e extrema direita. Assim como há professores de centro. Se isso for considerado possível. No entanto, não é necessário muita inteligência para perceber que não são os professores a principal causa da crise da educação brasileira. Podemos até pensar o contrário: são os professores, de todas as cores e origens ideológicas, que ainda sustentam o que resta de uma educação que se desfaz há já algum tempo. Sem a ação e resistência desses professores e professoras, a coisa estaria muito pior.
b) O segundo aspecto que pode nos ajudar a refletir melhor sobre a educação brasileira atual é perceber que falar em crise da educação no Brasil, sem analisar com mais cuidado e atenção sua abrangência e sua significação social, sua trajetória histórica e político e, até mesmo a sua real existência (duvidar hiperbolicamente dessa existência), deixou de fazer sentido. A simples afirmação dessa suposta crise ou a aceitação incondicional da sua existência, é uma atitude carente de significado. E mais ainda se tivermos em conta o que escreveu Darcy Ribeiro, em 1970, em um curto e incisivo texto ao qual deu o título “Sobre o Óbvio”.
No entanto, essas idéias e convicções pregadas, divulgadas e propaladas por estas pessoas, grupos e órgãos da grande imprensa, me assustam. E assustam-me porque foi isso o que ocorreu na Alemanha pré-nazista, na Itália pré-fascista e no Brasil pré-regime militar.
Por isso é aconselhável a leitura do texto de Darcy Ribeiro, citado acima. Mas, também, do livro de Theodor Adorno, “Educação e Emancipação”, em especial o capítulo intitulado “Educação após Auschwitz”. Alguns textos do Dermeval Saviani, da Marilena Chauí e do Antonio Joaquim Severino. Certamente a leitura dos textos desses autores nos ajudará a pensar melhor sobre a educação e sobre certas afirmações que tentam nos impor como verdades, algumas delas mal-intencionadas e fantasiosas e, por isso, nocivas à compreensão da realidade que nos cerca. Porém, interessantes para as pessoas e grupos de extrema direita.
Dildo Brasil,
Assinar:
Postagens (Atom)
