sexta-feira, 4 de abril de 2008

Liberdade sem Deus

O tema "deus" é invariavelmente causador de polêmicas entre os leitores de filosofia. Isso se deve, acredito, a uma certa dificuldade das pessoas em lidar separadamente com sua fé e com um "objeto de estudos". Curioso é que fazemos isso em outras áreas: estudamos que a qualidade do ar é nociva à saúde, mas não saímos dos centros urbanos para buscar um ar mais puro: parece que o ar estudado é diferente do ar respirado. O mesmo não acontece com deus: muitas vezes, quando um filósofo propõe alguma argumentação que envolva deus, seu interlocutor põe a crença pessoal como uma barreira que impede a reflexão filosófica, mais ou menos como que censurando o assunto.
A postura dos filósofos quanto ao "problema de deus" (essa expressão é no mínimo curiosa... mas refere-se a deus como problema filosófico) é bastante diversa; vai desde a busca por uma prova lógica ou ontológica de sua existência (Tomás) até a tentativa e sucesso no assassinato da figura divina (Nietzsche), passando por tantas outras. Uma destas posturas que mais me agrada é a de Sartre, que se poupa de discutir a existência ou não de deus: ele parte do princípio de que deus não existe. E, se não existe, não há porque empreender tempo filosofando sobre ele...
É nesse contexto que Sartre desenvolve sua filosofia existencialista que, sobre esse aspecto, pode ser entendida no seguinte trecho:

O existencialista, pelo contrário, pensa que é muito incomodativo que Deus não exista, porque desaparece com ele toda a possibilidade de achar valores num céu inteligível; não pode existir já o bem a priori, visto não haver já uma consciência infinita e perfeita para pensá-lo; não está escrito em parte alguma que o bem existe, que é preciso ser honesto, que não devemos mentir, já que precisamente estamos agora num plano em que há somente homens. Dostoiévski escreveu: “Se Deus não existisse, tudo seria permitido”. Aí se situa o ponto de partida do existencialismo. Com efeito, tudo é permitido se Deus não existe, fica o homem, por conseguinte, abandonado, já que não encontra em si,nem fora de si, uma possibilidade a que se apegue. Antes de mais nada, não há desculpas para ele. Se, com efeito, a existência precede a essência, não será nunca possível referir uma explicação a uma natureza humana dada e imutável; por outras palavras, não há determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade. Se, por outro lado, Deus não existe, não encontramos diante de nós valores ou imposições que nos legitimem o comportamento. Assim, não temos nem atrás de nós, nem diante de nós, no domínio luminoso dos valores, justificações ou desculpas. Estamos sós e sem desculpas. É o que traduzirei dizendo que o homem está condenado a ser livre. Condenado porque não se criou a si próprio; e, no entanto, livre porque, uma vez lançado ao mundo, é responsável por tudo quanto fizer.

Extraído de O existencialismo é um humanismo

E, para quem se permitir, algumas risadas podem ser extraídas com o vídeo Deus é pai disponível aqui.

Um comentário:

Marcos Euzebio disse...

Sartre parte mesmo do princípio de que não há Deus. Mas o bacana é que, ainda que Deus houvesse, nada mudaria. Isso faz com que possamos descansar da tarefa de provar/negar Deus.